O SECTARISMO E A COAÇÃO

Carta nº. 25 do Florilegio Epistolar,de Louis Cattiaux[1]

 

Seleção de Emmanuel d’Hooghvorst

Tradução do espanhol: Regina de Carvalho

 

               

 

            Só há um perigo real neste mundo, com relação a tudo o que fazemos ou pensamos, que é levar-nos a sério, ver as coisas tragicamente e desta maneira tornar-nos sectários e teimosos; e isto é verdade para tudo e para todos sem exceção. Vemos assim que a liberdade é muito difícil de conservar, mas é a que faz nos comunicar com Deus e deste modo permite que sejamos corrigidos e guiados sem esforços nem dores inúteis.

            Reflete atentamente sobre este pensamento acerca da coação, reflete sobre ela,submetendo-a às leis do universo, às leis da vida no mundo e verás que a ideia de coação encerra o germe da violência, da destruição e da morte.

            Todo nascimento, toda realização se fazem cuidadosamente do interior, por meio de mutações insensíveis. A coação opera pela força e mata mais do que vivifica. Trata-se, outra vez, da velha história de Satã maldito, rechaçado, vexado e rebelde. É a história das paixões e dos defeitos inibidos, enterrados com uma pedra em cima, e que finalmente explodem e destroem tudo. A Inquisição também partiu deste sentimento aparentemente muito louvável. A cristandade erra miseravelmente porque não crê, porque não segue o surpreendente ensinamento de Cristo Rei. Devemos transmutar, transformar e não destruir e reprimir; eis aqui a obra e eis aqui o segredo, amigo meu. Espero que me farás o favor de examinar com atenção tudo isto antes de refugiar-te em uma concepção antiga mas errônea. Sem dúvida, sofres muito por haver-te combatido com coragem, inclusive ferozmente. Perdoa-te, querido amigo, reconcilia-te, é tão mais fácil e mais eficaz!

            Temo a violência da gente bem intencionada que queimou aos albigenses e torturou a milhares de desgraçados com o falso pretexto de salvá-los!

            Quando te é pedida a prece e a bênção dos malvados, te encolerizas; o fazes, sobretudo, quando te é pedido que não te violentes, pois isto se converteu em algo tão arraigado na mente dos cristãos que não podem sequer imaginar que se possa ser suave consigo mesmo. E quem não é suave consigo mesmo, como poderia ser com os demais? E quem não se ama como faria para amar aos demais?

            Basta guardar-se sem violentar-se e, principalmente, sem violentar aos demais. Isto, exatamente, não significa ser como uma puta que sempre diz que sim; e se deve dizer não quando é não, mas não dá direito a maltratar aos que não pensam como si mesmo para salvá-los!

            A coação e a violência são como por uma lâmpada debaixo de um vaso com flores para fazê-las crescer mais rapidamente. É romper a casca antes do tempo para que o pinto nasça mais depressa. É abrir a crisálida para que a mariposa saia antes. É a panela de pressão para cozer mais rapidamente, também é o carro para ir mais rapidamente.

            Todos os pontos de vista podem justificar-se, mas a natureza não violenta nada quando dá à luz. Todos os germes se desenvolvem nas trevas, e a seu tempo saem à luz. Não se trata de lutar para nascer, trata-se de descansar, de abrir-se, em resumo, de morrer. Depois é quando há que lutar e esta luta é amor, isto é, captação da luz. A fé nos faz germinar, a esperança nos faz sair da terra e a caridade nos engrandece e nos dá o crescimento em tudo. Não vejo nisso nenhuma violência, e qualquer coação detém o processo de vida.

            Parece-me que não temos que lutar contra o mundo nem contra nós mesmos. Mais vale buscar a Deus sem ocupar-se dos outros, inclusive quando os outros se ocupam de nós. É simples, é fácil, se nos pede não agitar-nos e que deixemos que Deus e a sua vida façam.

            Que mais poderia dizer-te?

           

 



[1] Arola Editors, Tarragona (E), 1999