NOTA BIOGRÁFICA DE LOUIS CATTIAUX,

autor de A MENSAGEM REENCONTRADA

 

            'Louis-Ghislain Cattiaux nasce em Valenciennes, pequena cidade do nordeste da França, próxima à fronteira belga, em 17 de agosto de 1904. Passa lá os primeiros anos de vida, sem os pais, educado pela irmã mais velha. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial os irmãos se separam e Louis vai para um internato. Em 1922 ingressa na Escola de Artes e Ofícios de Paris, cidade onde residirá até o final da vida.

            Em 1928 conhece sua futura esposa, Henriette Père, e consegue um emprego em Dahomey (atual Benin), na África Ocidental, em uma firma comercial. Volta à França alguns meses depois com uma série de pinturas e aquarelas feitas na África, resolvido a se consagrar à arte. Começa a freqüentar os meios literários e artísticos da vanguarda.

            Em 1932 casa-se com Henriette e vai morar com ela (e com seu belo gato persa, Poupinet) no quartier latin, o bairro boêmio da capital francesa, na rua Casimir Périer, número 3, ao lado da pequena praça onde se ergue a igreja de Santa Clotilde. 

            São tempos de entrega aos ofícios de um pintor e poeta.

            É a partir dessa época que sua história parece dividir-se em duas: uma vida exterior e pública, de artista, e outra, interior e oculta, só a ele revelada. Assim, enquanto seu cuidado com a técnica pictórica se intensifica[1], um outro Cattiaux, secreto, está se forjando, alheio aos avatares deste mundo. Aquele que, a partir de 1938, começa a escrever uma série de sentenças ou aforismos que condensam o ditado de certa Musa amiga. 

            Em 1944 começa sua amizade com o filósofo católico, poeta e ativista da não-violência Lanza del Vasto. É o ano em que aparecem seus Poèmes du Fainéant (Poemas do Vadio).

            Trabalha por vários anos para redigir uma obra, em geral entre grandes dificuldades financeiras. O nome do livro já é A Mensagem Reencontrada, ou o Relógio da Noite e do Dia de Deus, a obra que ocupará, no dizer de seu amigo Charles d’Hooghvorst, «os últimos 14 anos de sua vida de escritor, e mais precisamente, a obra de toda a sua vida.»[2]

            A primeira edição é lançada em 1946, à custa do autor. Contém um prefácio de Lanza del Vasto e apenas os 12 primeiros capítulos, ou Livros, como se intitulam, dos 40 que vão compor a obra completa. 

            Louis Cattiaux envia o livro à René Guénon, que percebe na Mensagem Reencontrada o perfume de algo autêntico, o que o leva a publicar, em 1949, uma resenha na revista Études Traditionnelles.[3] Estas poucas linhas são fecundas: são lidas pelos irmãos belgas Emmanuel e Charles d’Hooghvorst que resolvem, num lampejo de intuição, ir comprar A Mensagem Reencontrada. Descobrem, assim, que o livro ainda está sendo escrito. Conhecem o autor, que se torna amigo íntimo deles. Com este pequeno grupo que se aproxima dele Cattiaux estabelece, nos derradeiros anos de vida, uma intensa relação pessoal e epistolar. 

            Cattiaux escreve dia após dia, versículo após versículo, como possuído por um deus secreto: é só a ele que ouve, sem distrações, no tumulto da grande cidade.  Nada é abstrato, nada é especulativo: L. Cattiaux é um operativo no sentido pleno e profundo do termo. 

            Em 1949 ele escreve o ensaio Physique et Métaphysique de la peinture, que só será publicado dali a 42 anos, em 1991. Em 1952 completa sua última série importante de pinturas.

            No último ano de vida, em maio de 1953, viaja a Santa Fé del Montseny, na Catalunha. Encerra sua caminhada terrestre em 16 de julho, em Paris.
            Em 1956, graças aos irmãos d’Hooghvorst, a edição completa de
 A Mensagem Reencontrada (com seus 40 Livros) é publicada pelas Editions Denoël,de Paris.

            Hoje há edições da obra em espanhol, catalão, italiano, inglês, alemão e em português, publicado pela Editora Madras (São Paulo, 2005).

 


 

[1]Por volta de 1936, abre um período de maior atividade exterior (coletivas e individuais em 1939, na galeria Berthe Weill; presença no Salon des Tuileries de 1942; participação na exposição “Etapas da nova arte contemporânea” sob a curadoria do historiador e crítico de arte Gaston Diehl, que também seleciona obras de Cattiaux em diversas mostras de 1943).

[2] Charles d’Hooghvorst, Breve Apresentação do livro A Mensagem Reencontrada de Louis Cattiaux, conferência proferida em Roma em 2002.

[3]René Guénon, Sobre  A Mensagem Reencontrada de Louis Cattiaux, resenha publicada na revista Études Traditionnelles, rúbrica  “Les livres”, 270, setembro de 1948.