FÍSICA E METAFÍSICA DA PINTURA

Capítulo X – ORIGEM

 

 

Louis Cattiaux

  tradução do espanhol:  Fabio Malavoglia

 

 

A arte é mágica ou não é.

 

A origem da arte não é o resultado de uma necessidade estética, como se crê geralmente, mas de uma necessidade de domínio mágico.

De fato, todos os exemplares mais antigos de desenhos e de pinturas rupestres contém signos estranhos que são de difícil interpretação quando não se conhecem os antigos rituais de feitiçaria. Nessas pinturas, que geralmente representam animais, vêem-se pontos e traços que se dirigem para a cruz das bestas e outros pontos vulneráveis.

Trata-se da representação de lanças e flechas que atravessam magicamente e efígie sensibilizada do animal que está no alvo de mira do ritual de feitiçaria.

Os primitivos conheciam muito bem a poderosa ação que exercia sobre a alma coletiva de certas espécies o influxo mágico do feitiço de caça. Punham-se em contato com a egrégora[1] do rebanho por meio de um ritual de sensibilização da imagem pintada e obtinham seu consentimento assegurando a perenidade da espécie, sua perpetuação pela salvaguarda das mães e dos animais jovens.

Os corpos sem cabeças de ursos e de bisões feitos de argila que foram encontrados recentemente em grutas pré-históricas intrigam muito aos arqueólogos[2]. Porém, todos os sinais de uso mágico dessas efígies são visíveis tanto nelas como ao seu redor. A lança que emerge de seu pescoço destina-se a sustentar a cabeça recém cortada de um animal morto na caça; essa cabeça completa assim a dagyde[3] de feitiçaria e a anima, vitaliza-a, sensibiliza-a, impregna-a com a alma coletiva do rebanho.

O rito mágico que se segue serve para dar aos caçadores o domínio sobre o referido rebanho pela influência psíquica sobre a entidade que anima àqueles animais.

As numerosas marcas de mãos manchadas de sangue encontradas sobre estas efígies ou sobre as pinturas rupestres, assim como as flechas cravadas em pontos vitais, constituem marcas visíveis do ritual secreto da possessão mágica.

A própria música, o canto e a dança em sua origem só eram suportes do pensamento mágico que se concilia com o mundo hostil ou o domina.

Assim, todas as artes tem sua origem na primeira obrigação do homem encarnado: a de defender-se nos três planos do mundo criado. Somente depois do término dos ritos ele pôde adquirir consciência da gratuidade da arte pelo jogo de formas, sons, cores e movimentos, e pôde elevar sua magia até tentar comungar por meio dela com a grande alma do mundo a que os homens chamam Deus.

Então diremos que a magia particular elevou-se até a magia geral e que a arte é o canal que nos põe em comunicação com o Universal.

Quando isso se produz é arte, quando não se produz não é nada.

Portanto, a obra de arte é uma criação mágica e, assim como a procriação, exige, para dar lugar ao Ser, uma carga psíquica produzida pelo espasmo do amor. Por isso há tão poucos homens e tão poucas obras vivas neste mundo, porque a projeção mágica é acima de tudo um ato difícil, como aquele da transmissão integral da vida; e poucos seres são capazes de realizar esse mistério da transfusão energética da “voltagem”.

Os filhos do amor, mais vivos e mais belos que os demais, são os engendrados no entusiasmo e na paixão amorosa; se considerarmos a média da humanidade e as obras habituais teremos a prova de que tudo que se faz no tédio e na mediocridade engendra a morte. Somente os artistas generosamente dotados carregam inconscientemente suas obras as quais, por consequência e sem explicações razoáveis, enfeitiçam a certos espectadores mais sensíveis e receptivos que o comum dos homens.

Assim, pois, os humanos e as obras de arte que nasceram mortas pululam naturalmente no mundo devido ao estímulo dado à debilidade e à morte, sempre crescentes desde a queda inicial.

Estas criações fantasmagóricas só tem a aparência de vida sem possuir sua essência, porém, como dizia o mestre antigo: “Há que deixar que os mortos enterrem a seus mortos”, pois o absurdo da morte é a única coisa capaz de fazer com que nos repugne verdadeiramente.

A vida só se transmite fazendo amor, seja procriando, obrando ou rezando, e onde não se faz amor há somente uma caricatura de vida, tédio e morte.

Cabe assinalar a finalidade que tinha na Idade Média a magia particular da Arte (época de fé, de ciência e de luz, digam o que disserem alguns miseráveis pedantes primários). Trata-se dos retratos mágicos destinados a proteger seus possuidores. Considerava-se que eram ditas representações que sofreriam os acidentes suscetíveis de alcançar o paciente retratado.

Numa velha crônica explica-se a aventura de certo gentil-homem parisiense: um dia, enquanto passeava tranquilamente pelos molhes do rio Sena em companhia de seus amigos, de repente começou a gritar de dor e correu a atirar-se ao rio, de onde foi tirado com grandes dificuldades. Quando lhe perguntaram se tinha ficado louco, proferiu esta estranha resposta: “Minha casa está ardendo e meu retrato já não é mais que cinzas”. De fato, pouco tempo depois seus companheiros constataram a veracidade de sua afirmativa e conheceram com pavor a eficácia das ciências secretas. Também o gentil-homem aprendeu, às suas custas, que a magia é reversível, já que, depois de carregar seu retrato mágico para que recebesse em seu lugar os golpes que lhe chegassem, surpreendeu-se ao constatar que o contrário também podia ocorrer, e que tinha corrido o risco de queimar-se no lugar de sua imagem extremamente rebelde às chamas. O fato de atirar-se à água deteve a magia e restabeleceu a norma, com grande prejuízo para a imagem mas para consolo do interessado.

Oscar Wilde soube de tais procedimentos e escreveu O Retrato de Dorian Gray para ilustrá-los plenamente.

Tive ocasião de ver de perto um desses retratos; não saberia expressar a estranha atração que desprendia aquela obra, assim como a impressão de presença real, que inclusive chegava a incomodar e, com o tempo, a produzir angústia.

Na verdade, seria impossível conviver durante muito tempo com uma obra dessas, tão forte e perturbador é o sentimento de “presença”.

O segredo da realização de tais obras quase se perdeu, alguns artistas de vasta cultura e com poderes reencontraram o essencial de seu procedimento, e a aplicação que dele fizeram não deixa nenhuma dúvida sobre a eficácia da ação buscada. Seria curioso ver exposta uma obra deste tipo entre reproduções comuns, a fim de estudar a reação do público não advertido; reações que certamente estariam recheadas de ensinamentos em relação ao valor intrínseco das obras “vivas” assim apresentadas. Os cães, os gatos e os cavalos não se equivocam, e diante destes quadros animados reagem como diante de seres vivos; ficam inquietos e acabam por ladrar, miar e relinchar, retrocedendo de surpresa e medo.

As recentes reações de surpresa que provocaram as exposições de obras realizadas por crianças, ingênuos, primitivos ou loucos. Mostram com suficiente clareza as origens misteriosas e mágicas da arte.

A esse respeito, os objetos dos negros chegam até à alucinação, e é na magia deles que se há de buscar seu valor de expressão única. Lembro de ter visto, no Museu do Homem, umas dagydes de feitiçaria cobertas por pele de pantera e ritualmente atravessadas por agulhas. O espetáculo era repulsivo e ia além de toda expressão humana, e não pela arte do escultor, mas muito mais pelo que se desprendia de ódio e de sofrimento misteriosamente concentrados naquelas bonecas animadas. Os pelos, literalmente se arrepiavam nos espectadores que não fugiam, secretamente espantados por tanto horror acumulado naqueles “seres malditos”.

A este respeito é interessante lembrar a forma com que os egípcios e os chineses animavam certos “duplos” ou determinadas estátuas. Os primeiros procediam por meio de passes magnéticos, enquanto os segundos encerravam a um animal vivo no próprio corpo da obra. Os caldeus chegavam inclusive a incorporar seres humanos em algumas estátuas a fim de criar seus ídolos falantes, verdadeiros oráculos mágicos. Da mesma forma, consagravam a guarda de seus monumentos importantes a crianças enterradas vivas em seus fundamentos.

O que nos parece uma barbaridade sem nome, para eles era somente uma coisa natural, pois ao observar o mundo como uma realidade formal composta de três planos, espiritual, anímico e corporal, não acreditavam que a morte fosse um fim em si mesma, mas a passagem de um mundo a outro, algo não mais terrível nem mais grave que um catarro.

Nossa postura materialista, que nos leva a não considerar mais que as aparências do mundo, faz-nos exagerar até o absurdo a angústia da mudança e a renovação de todas as coisas. Tomamos por um fim aquilo que só é um começo. Esta atitude dos filósofos cartesianos, cegados pela crosta do mundo, engendra o ceticismo, o desespero e a dissolução das sociedades modernas que renegaram suas fés antigas que, aparentemente, tornaram-se demasiado simplistas e infantis.

Jean-Paul Sartre indica, num prefácio escrito recentemente: “Diz-se que os primitivos dos mares do Sul negam-se a se deixar fotografar; acreditam que são capturados e dominados para sempre”. As experiências do senhor De Rochas provam, efetivamente, que se pode sensibilizar magneticamente a camada gelatinosa na qual se inscreve o duplo do sujeito fotografado, e assim alcança-lo à distância sem que esse último possa proteger-se.

O estudo irracional das antigas crenças provavelmente nos conduziria a constatar nossa grosseira ignorância sobre os problemas que concernem à vida e à morte.

A orgulhosa crença em nossa suposta civilização e na nossa pseudociência, por desgraça, impede-nos de considerar o9 mistério da criação a partir da simplicidade primeira, na qual o instinto unido à intuição substituiria brilhantemente nossa rasteira razão razoável. Pois somente aquele que penetra até a raiz conhece todos os frutos da árvore.

 

O artista não imitará a natureza
sob pena de ser tonto ou tolo.

Armand Drouaut

 

A arte imita a natureza em seu modo de operar
e não em suas visões naturais.

Albert Gleizes

 

 


[1] Translação para o português da palavra francesa égregore, idealizada pelo autor para designar o espírito da manada (da “grei”) (Nota de Tradução)

[2] Alguns, como o abade Breuil, o poeta Ruskin, Frazer, Elie Faure e outros reconheceram a origem mágica da Arte.

[3] Bonecas de cera que se usavam antigamente nos encantamentos. (Nota de Tradução)