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APRESENTAÇÃO DA POESIA DE LOUIS CATTIAUX

 

 

Louis Cattiaux também cultivou a poesia e seus poemas, escritos a partir de 1930, que nos mostram um homem que poetiza sua experiência pessoal, sua relação íntima com a divindade, em que aflora o verbo que dita e que se diversifica no dizer poético, do qual emanam as infinitas metáforas, correspondências, analogias, símbolos, imagens, como reflexos do Real emulsionado nas palavras.

Quando a Musa se entrega ao poeta e a inspiração flui, a poesia surge como um raio luminoso, como o primeiro dia da criação. Então Deus mesmo se expressa através do poeta inspirado, tecedor de cantos graças ao fio celeste que a Musa lhe outorgou. Trançando este fino fio azul criará seu tecido de versos, um céu de palavras captadas e cantadas na terra. Assim foi a obra poética e a vida de Louis Cattiaux.

Claro que sua poesia está estreitamente vinculada a A Mensagem Reencontrada, sua obra maior.

 Grande parte de seus poemas foram editados em Paris (Le Cercle du Livre) em 1954, quando seu autor já havia saído deste mundo. Sua obra poética completa foi publicada muito depois, em 2003, com alguns poemas inéditos, pela editora francesa La Table d’Émaraude.

Oferecemos aqui, suas poesias (vê-se em LOUIS CATTIAUX – Poemas de Louis Cattiaux, neste site).

POEMES D’AVANT                                POEMAS D’ANTES

(1930)                                                                                       (1930)

  
Tradução de Fabio Malavoglia
Revisão e sugestões de tradução de Joel Lamac Longo

 

*
Mes amis sont partis ou morts sans dire porquoi.
Je rest seul sur la pavê où la boue gicle partout et ne m’atteint pas.

Mes amis sont partis ou morts sans dire porquoi.
Je suis avec eux dans ce pré où l’herbe pousse partout et ne m’atteint pas.


Meus amigos de partida ou mortos sem dizer por quê.
Resto eu só na calçada onde a lama esguicha em tudo e não me atinge.

Meus amigos de partida ou mortos sem dizer por quê.
Estou com eles neste prado onde a grama brota em tudo e não me atinge.


Nota da tradução: em português, a tradução literal do particípio passado “sont partis”, do primeiro e terceiro versos, seria partiram. Mas em tradução de poesia é essencial levar em conta seja o significado, seja a forma. Se a versão fosse para o italiano, a forma seria bastante próxima: sono partiti. Só que em português partidos significa acima de tudo e normalmente divididos. Mas como partiram ou morreram é sonoramente muito distante do original, optamos por usar de partida a fim de manter o particípio passado, como em morto¸ o que nos parece a solução mais próxima do conjunto senso-formal do verso.

*

Dans ces climats pourris qu’on nomme temperés
les arbres se lamentent aux printemps avariés,
les oiseaux siderés piétinent toutes les vases,
les chansons mort-nées se perdent dans les glaces,
et les pensées errantes ne savent où se poser.

Nestes climas pútridos que chamamos temperados
as árvores se lamentam em primaveras aviltadas,
as aves sideradas pisoteiam todos os vasos,
as canções natimortas se perdem pelos gelos,
e os pensares errantes não sabem onde pousar.

Nota da tradução: neste poema pensées não foi traduzido por pensamentos, palavra mais longa que a forma francesa, optou-se por uma substantivação – pensares – ,mais assemelhada à forma italiana pensieri e ao próprio original francês

*

Vais-je m’affliger de ma carcasse changeante

et du temps à la brume
quand les fleurs du prumier
me font signe de vivre?
Vais-je me réjouir de ma peau élastique
et du soleil brûlant
quand les fleurs du pommier
me font signe de mourir?
Bientôt ma propre densité
m’eloignera de ces pôles absurdes.
Je serai mon propre reflet
dans la conscience abstruse. 

Vou me afligir por minha carcaça cambiante
e pelo tempo nas brumas
quando as flores das ameixas
me assinalam a vida?
Vou me rejubilar por minha pele elástica
e pelo sol em brasa
quando as flores das maçãs
me assinalam a morte?
Em breve minha própria densidade

afastar-me-á destes pólos absurdos.
Eu serei o meu próprio reflexo
na consciência abstrusa.

*

Um soir du fin du monde vit passer
la horde silencieuse des enfants estropiés.
Halluciné leur groupe insensible gallopait dans l’étrange,

vers les destinées morts,
où l’aurore boreale imitait le matin.

Um anoitecer do fim do mundo viu passar
a horda silenciosa das crianças estropiadas.
Alucinado seu grupo insensível galopava nas estranjas,
rumo aos destinos mortos,
onde a aurora boreal imitava as manhãs.

Nota da tradução: a expressão dans l’étrange, traduzida literalmente (no estranho) pareceu-nos deixar muito a desejar. Depois de tentar no estrangeiro, e de receber a sugestão no estranhamento, para verter a sensação de deslocamento aludida no verso, optamos por nas estranjas, modo coloquial brasileiro, assemelhado ao termo francês quanto à forma e sentido.

 

POEMAS DE LOUIS CATTIAUX

 

 

 

                         Como uma terra prometida abeberada de inocência, eu me entrego àquele que desembaraça a minha noite, e o meu coração se decanta no repouso e luz.

 
 

* * *

 

                         Antiga solidão das florestas primordiais onde brilha a esmeralda emanada das estrelas! Aquele que vos encontrou possui o segredo divino que um mestre certo nos legou no pão e no vinho!