O CICLO LITÚRGICO DO CRISTIANISMO

 

            

     O ciclo litúrgico do cristianismo contém todos os ensinamentos sobre a nossa regeneração e nos convida a dirigir a nossa vida para Deus.

     O ciclo começa na quarta feira de Cinzas, que é o primeiro dia da Quadragésima ou Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa.

     Estas cinzas são produzidas pelo fogo divino que purifica o homem, e que anuncia o que deve acontecer em todos nós: devemos ser purificados pelo fogo de Deus.

     Há um fogo celeste, exterior ao homem, e um fogo terrestre, dentro de todo ser humano. Deus é fogo.

     As cinzas são um símbolo da dissolução e purificação do homem “velho”, imperfeito, “manchado” pela queda, para que dele nasça o homem novo, a vida nova em nós, graças à visita do Deus do céu, que vem para nos abençoar.

     Dessas cinzas nascerá o Filho de Deus, Cristo, como a Ave Fênix, que renasce das suas cinzas.

    Na antiguidade se cobria a cabeça dos catecúmenos de cinza, para lembrar o que devia acontecer dentro deles: uma purificação pelo Fogo de Deus.

     Pois como diz um antigo texto de um hermetista cristão:

 

            “O final de todas as coisas parece ser que é a cinza. Mas se diz que o final da cinza é o cristal”.[1]

 

     As cinzas contêm um cristal que nos lembra que Deus está emulsionado na sua Criação. E das cinzas se faz o vidro, que é um símbolo do corpo de Luz ou de Glória.

     Aquilo que parecia ter desaparecido nas cinzas, renasce delas como a Ave Fênix, que é um dos hieroglíficos de Cristo.

    Antes da Quaresma vem o carnaval, herdeiro das antigas festas em honra do deus Saturno: as Saturnais romanas.

     A Páscoa se celebra no primeiro domingo depois da primeira lua cheia de primavera (no hemisférico norte), e o carnaval é uma festa móvel ligada à Páscoa.

     Por tanto, o carnaval pode oscilar entre 4 de fevereiro e 10 de março. Assim, pois, está bem perto da Quaresma.

    Saturno (Lat. Saturnus) vem do latim satus, que significa ‘semente’, ‘geração’. As antigas saturnais romanas celebravam o renascimento das sementes, depois do frio do inverno. Isto é uma forma de aludir ao mistério do nascimento da vida nova em cada um de nós, como acontece com a Páscoa.

     Todos temos uma semente divina “congelada” que a primavera de Deus desgelará e fará renascer.

    Desde a antiguidade se pratica o jejum, pois –além de ser bom para a saúde– nos lembra que devemos “emagrecer”, isto é, devemos diminuir para que a nossa centelha divina cresça, como diz João o Precursor, no Evangelho de João 3, 30:

 

            “É preciso que ele cresça e que eu diminua”.

 

     E Dante escreve na Vita Nova (II):

 

            Ecce deus fortior me, qui veniens dominabitur mihi”. (‘Este deus que vem, que é mais forte que eu, me dominará’)

 

     O ser humano exterior deve diminuir para poder receber a benção da Páscoa.

     Esta purificação também implica vencer as tentações que nos chegam, como Jesus Cristo foi tentado por Satã no deserto durante 40 dias.

     O homem que recebe o Dom de Deus também sofre tentações, nas que ele se fortalece ou se deixa vencer por elas. Lembrem as chamadas “tentações de Santo Antonio”.

    A Quaresma é uma purificação prévia ao batismo, pois para ser fecundados por Deus devemos antes ser purificados.

     A Virgem Maria era pura, por isso diz a Tradição cristã que ela foi visitada pelo Anjo Gabriel em 25 de março. E nove meses depois, em 25 de dezembro, nasceu Cristo.

     No hemisfério Norte, a partir de São João Baptista (24 de junho), diminui as horas de luz dos dias, até que chega o dia mais curto e a noite mais longa, o solstício de inverno, no dia 20-21 de dezembro. E do meio desta grande escuridão, no dia 25 nasce o Filho de Deus, a Luz do Mundo: Cristo, que era chamado de Sol Invictus.

     E temos aqui outro grande ensinamento, pois a partir de uma realidade astronômica vulgar, a Igreja nos mostra o mistério da Luz da vida nova nascendo da grande escuridão.

     E isto deve acontecer em cada um de nós.

     Assim, o ciclo natural do ano fica integrado e sacralizado, inserindo nele o ciclo litúrgico.

    Com relação a nós, também devemos inserir nas nossas vidas naturais o ciclo sagrado da liturgia, que nos integra assim no tempo de Deus, sacraliza a nossa existência e nos encaminha para Ele.  



[1] Douzetems, Honores sacer, p. 23, citado por E. Durán em La Puerta. Sobre esoterismo cristiano, Ed. Obelisco, Barcelona, 1990, p. 42.